Sobre as Catilinárias de Cícero, talvez o discurso mais eloquente da humanidade

"Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?
Quem ad finem sese effrenata iactabit audacia?
Nihilne te nocturnum praesidium Palati, nihil urbis vigiliae, nihil timor populi, nihil concursus bonorum omnium, nihil hic munitissimus habendi senatus locus, nihil horum ora voltusque moverunt?
Patere tua consilia non sentis, constrictam iam horum omnium scientia teneri coniurationem tuam non vides?
Quid proxima, quid superiore nocte egeris, ubi fueris, quos convocaveris, quid consilii ceperis, quem nostrum ignorare arbitraris?
O tempora, o mores!
Senatus haec intellegit. Consul videt; hic tamen vivit.
Vivit?”



Passados mais de dois mil anos, desde quando reverberado no Senado Romano, as catilinárias de Cícero contra Catilina continuam atuais. Denunciam as chagas abertas da conspiração e da corrupção, que ameaçam qualquer república e, hoje, encontram-se expostas no tecido político brasileiro.

Quem nunca ouviu ao menos a primeira frase, em latim, deste fantástico discurso de Cícero contra Catilina? A primeira catilinária?

O incrível não é apenas a popularidade da primeira frase – é a sua atualidade.

Marco Túlio Cícero (Marcus Tullius Cícero) foi o mais brilhante advogado romano, fantástico orador, doutrinador e humanista sensível – a ponto de sua enorme compreensão humana dos fatos políticos ter-lhe custado momentos críticos de hesitação e mudanças, isso em um período marcado por crises republicanas, ascenção da ditadura de Caio Júlio César (Caius Julius Caesar) e a consequente morte da República – que tanto defendera.

Cícero, a par de sua carreira de advogado, foi questor em 75 a.C. (com 31 anos), Edil em 69 a.C. (com 37 anos), e Pretor em 66 a.C. (com 40 anos). Presidente do Tribunal de “Reclamação” e Cônsul eleito, quando tinha apenas 43 anos.

Foi exercendo o consulado que Cícero destruiu a conspiração liderada por Lúcio Sérgio Catilina, para derrubar a República.

O Senado concedeu a Cícero o Senatus Consultum de Re Publica Defendenda – algo parecido com os poderes excepcionais no Estado de Sítio.

Nessa condição, Cícero fez Catilina deixar voluntariamente a cidade – varrido por quatro discursos memoráveis, chamados Catilinárias, que até hoje são exemplos estupendos de oratória.

As Catilinárias formam um conjunto acusatório, expondo as tramas, conspirações, corrupções e até mesmo excessos pessoais de Catilina e seus seguidores. Denunciam simpatizantes de Catilina no Senado Romano, qualificando-se como patifes, corruptos e maus pagadores, que viam Catilina como uma espécie de esperança desesperada.

Cícero, ao invés de decretar a execução, exigiu que Catilina e os seus seguidores deixassem a cidade. Quando acabou o seu primeiro e memorável discurso, Catilina saiu do Templo de Júpiter Estator. Nos discursos seguintes, já sem a presença de Catilina, Cícero dirigiu suas catilinárias ao Senado Romano

A crise, contudo, não se resolveu com o exílio voluntário de Catilina, pois a conspiração continuou. Entra em cena o tribuno Caio Júlio César, que impediu a aplicação da pena de morte a Catilina e seus seguidores e pregou a prisão perpétua dos conspiradores, contrariando outro grande Senador, Catão, que defendeu a pena de morte e obteve a aprovação do Senado.

Cícero discordava de César e Catão – ele entendia que Catilina e os conspiradores, ainda que nefastos, mereciam um julgamento formal. Porém, sem outra saída senão aceitar a ordem do Senado, ordenou que os conspiradores fossem levados a Tuliano, onde foram estrangulados.

Constrangido com o espetáculo das execuções, Cícero fez questão de acompanhar o ex-cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, um dos conspiradores, a Tuliano. Por salvar a República Romana, Cícero recebeu o título honorífico de “Pai da Pátria”. Porém, passou o resto da vida temendo ser julgado ou exilado pelo fato de ter condenado cidadãos Romanos à morte sem julgamento.

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